Análise · Eleições 2026

Eleição presidencial 2026, 1º turno: de onde vieram os votos?

A virada veio do interior. Em 2022, o 13 terminou o 1º turno 5 pontos à frente do 22; em 2026, o 22 terminou na frente. Seis em cada dez votos dessa mudança vieram de cidades com menos de 50 mil eleitores. As capitais mudaram pouco.

Por Equipe NanoIris6 de outubro de 2026Leitura de 5 min

Mapa do voto: o resultado de cada cidade e local de votação →Dados no Mapa: empresas, população e serviços de cada cidade →

Mapa do Brasil por município: quanto a diferença entre o 13 e o 22 mudou entre 2022 e 2026
Cada município colorido segundo quanto a diferença entre o 13 e o 22 andou entre o 1º turno de 2022 e o de 2026. Quanto mais escuro, maior a mudança. Atenção: os municípios grandes do Norte ocupam muito espaço no mapa, mas têm poucos eleitores.

Em 2022, o candidato 13 (Lula) terminou o 1º turno 5,2 pontos à frente do 22 (Jair Bolsonaro). Em 2026, o 22 (agora Flávio Bolsonaro) terminou 1,9 ponto à frente do 13. Em quatro anos, a diferença entre os dois andou 7,1 pontos, o equivalente a 8,8 milhões de votos.

De onde veio essa mudança? Comparamos as duas eleições em cada uma das 5.570 cidades do Brasil, com os dados oficiais do TSE. A resposta é simples: a virada veio do interior. Das cidades pequenas e médias, sobretudo no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste. As capitais e as grandes cidades mudaram pouco.

O Brasil inteiro se moveu, mas não por igual

O mapa no alto da página mostra, município por município, quanto a diferença entre o 13 e o 22 mudou. Quase todo o país andou na mesma direção: só em poucas cidades o 13 ganhou terreno. Mas a intensidade muda muito.

As manchas mais escuras estão no Rio Grande do Sul, no Paraná, em Goiás, no Tocantins, no Triângulo Mineiro e no interior de Minas e de São Paulo. Lá, a diferença andou 15, 20 pontos ou mais. As grandes cidades do litoral e as capitais aparecem mais claras: mudaram menos.

As 726 cidades que trocaram de vencedor

Um jeito ainda mais direto de ver a virada é contar as cidades em que o vencedor mudou. Em 726 municípios, o 13 tinha vencido em 2022 e o 22 venceu em 2026. O caminho inverso aconteceu em apenas 6.

Mapa do Brasil com os 726 municípios que passaram do 13 ao 22 entre 2022 e 2026
Em roxo, os municípios em que o vencedor do 1º turno passou do 13, em 2022, ao 22, em 2026. Fonte: TSE.

Quase nove em cada dez dessas cidades (88%) estão no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste. Os estados com mais cidades viradas são Minas Gerais (178), Rio Grande do Sul (134), Paraná (91), São Paulo (90) e Goiás (69). No Nordeste, foram só 15.

O peso das cidades pequenas

O mapa mostra onde; falta mostrar quanto. Para isso, dividimos as cidades pelo tamanho do eleitorado e comparamos duas coisas: quanto cada grupo pesa no total de eleitores e quanto pesou na mudança.

De onde veio a mudança: quem são os eleitores e de onde veio a virada, por tamanho da cidade
Eleitores (votos válidos em 2026)
14%29%22%19%15%
Mudança na diferença entre o 13 e o 22
23%39%22%10%6%

Menos de 10 mil eleitores10 a 50 mil50 a 200 mil200 mil a 1 milhãoMais de 1 milhão

Tamanho da cidade = votos válidos em 2026. Mudança = variação da diferença entre o 13 e o 22, em votos, somada por grupo. Fonte: TSE, votos por seção, 1º turno de 2022 e 2026.

As cidades com menos de 50 mil eleitores reúnem 43% dos votos do país, mas produziram 62% da mudança. As cidades com mais de 200 mil eleitores, onde estão as capitais, reúnem 35% dos votos e produziram só 16% da mudança.

Se as cidades com menos de 50 mil eleitores tivessem votado como em 2022, o 13 teria terminado o 1º turno na frente, com cerca de 3 milhões de votos de vantagem.

Fizemos a conta ao contrário para testar. Mantendo todas as cidades como votaram em 2026 e devolvendo só as menores ao resultado de 2022, a liderança volta para o 13. Fazendo o mesmo com as cidades grandes, nada muda: o 22 continua na frente. Foi nas cidades pequenas e médias que a disputa do 1º turno virou.

E o Nordeste?

O Nordeste também se moveu: a sua parte na mudança (27%) é quase igual ao seu peso no eleitorado (28%). Mas lá o 13 partia de tão à frente, em 2022, que quase nenhuma cidade trocou de vencedor. A diferença diminuiu, sem virar.

Peso de cada região no eleitorado e na mudança

Parte da mudançaParte do eleitoradoem %

Sudeste1.668 municípios
36,7
40,6
Nordeste1.794
27,1
28,3
Sul1.191
20,9
14,7
Centro-Oeste467
8,1
7,6
Norte450
7,2
8,5

Em porcentagem do total do Brasil. Fonte: TSE.

O Sul é o caso oposto: tem 15% do eleitorado e produziu 21% da mudança. Foi a região que mais pesou além do seu tamanho.

O interior que mudou é o interior que produz

Quem são essas cidades? Cruzando com as contas do IBGE, um traço se destaca: a economia agropecuária. As cidades em que o agro é o principal setor somam 7% dos eleitores, mas produziram 14% da mudança, o dobro do seu peso. E quase metade das 726 cidades viradas (352) é desse tipo. Não é um interior pobre: o PIB por habitante típico dessas cidades (R$ 41,8 mil) é maior que o das cidades de serviços (R$ 35,8 mil).

Você pode ver o resultado de cada uma delas no Mapa do voto, e a economia, as empresas e a população de cada cidade em Dados no Mapa.

Por que isso importa fora da política

O voto costuma ser um dos comportamentos mais estáveis de uma população. Se até ele muda em ritmos tão diferentes de uma cidade para outra, o mesmo vale para o consumo, o crédito e a disposição para trocar de fornecedor. Olhar o Brasil pelas capitais, ou pela média do estado, é perder justamente os lugares onde as coisas estão mudando.

Para uma empresa, a pergunta certa não é «como está o Brasil», e sim «quais são as cidades que estão se movendo, e o que elas têm em comum». Os dados para responder existem e são públicos. É o trabalho que a NanoIris faz: cruzar essas fontes, município por município.

Conclusão

A troca de liderança entre 2022 e 2026 não veio das capitais. Veio de milhares de cidades pequenas e médias do interior, sobretudo no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste, muitas delas com economia ligada ao agro. Foi lá que o eleitorado mais mudou, e foi lá que a disputa do 1º turno virou.

Esta análise descreve resultados oficiais, sem avaliar candidatos. São dados agregados por município: mostram onde o voto mudou, não por que, nem como votou cada pessoa.

Como fizemos

  • Votos. Soma de todas as seções eleitorais de cada município, arquivos de votação por seção do TSE, 1º turno de 2022 e de 2026, cargo de presidente. Votos válidos = sem brancos e nulos. O número 22 identifica o mesmo partido nas duas eleições.
  • Mudança. Para cada município, diferença entre o 13 e o 22 em porcentagem dos votos válidos, em 2026 menos 2022, multiplicada pelos votos válidos de 2026: é a mudança em votos. Somada por grupo de cidades, dá a parte de cada grupo nos 8,8 milhões.
  • Simulação. Para um grupo de cidades, substituímos a diferença de 2026 pela de 2022 e recalculamos o total do país, mantendo as demais cidades como votaram em 2026.
  • Cidades viradas. Município em que o candidato mais votado no 1º turno mudou entre as duas eleições.
  • Economia. Setor principal = maior participação no valor adicionado do município (IBGE, PIB dos Municípios, 2021).
  • Mapas. Malha municipal do IBGE. 13 municípios ficam sem cor por grafias diferentes entre TSE e IBGE.

Fontes

  • Tribunal Superior Eleitoral (TSE), votação por seção eleitoral, 1º turno de 2022 e de 2026
  • IBGE, malha municipal e Produto Interno Bruto dos Municípios

Pode citar e compartilhar estes números indicando a fonte «NanoIris, com dados de Tribunal Superior Eleitoral, IBGE».

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